Encontro de Professoras do Andes-SN denuncia desigualdades na carreira docente

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As desigualdades de gênero ressaltadas pela pandemia da Covid-19 foram eixos centrais de discussão do 1º Encontro de Professoras da Base do Andes-SN/RJ. Realizado por teleconferência, o evento reuniu no último sábado (10/4) 38 docentes – foram 54 inscrições – de sete diferentes universidades públicas do estado.

O Encontro foi organizado pela Regional Rio do Andes-SN e por uma comissão de professoras indicadas por cinco seções sindicais (Asduerj, Adur-RJ, Aduff, Ades-Faetec e Aduenf). Participaram também filiadas à Adufrj e a Aduni-Rio.

Tempo dedicado a cuidados domésticos impactam na produção das cientistas

A professora Regiane Sbroion da Faculdade de Educação e membra do GT Mães Cientistas da Uerj foi uma das indicadas pela Asduerj – junto a professora Daniele Brandt (FSS/Uerj) – para a comissão organizadora do evento. Segundo ela, além de questões relacionadas à maternidade, vários estudos têm mostrado o quanto tarefas domésticas e o cuidado com pessoas adoecidas têm sido delegados sempre às mulheres. Essa carga horária adicional de cuidados domésticos impacta diretamente no trabalho remunerado desempenhado por elas, afirma a docente.

Apesar de anteriores à pandemia, essas questões se intensificaram com a quarentena e impedem muitas vezes as mulheres de concorrerem e vivenciarem a carreira de cientista em pé de igualdade com os outros profissionais. “No momento da pandemia em que a gente está trabalhando em casa, com as crianças sem escola, tudo isso se intensifica”, destaca Regiane.

O 1º Encontro de Professoras da Base do Andes-SN foi realizado com base nesses dados. “Foi um momento de acolhida, de conversa, quando pudemos conhecer e ouvir nossas companheiras professoras a respeito de como elas estão vivenciando essa situação: quais os problemas, quais as demandas que a gente tem se deparado e nesse sentido pensar quais são as construções possíveis e necessárias, pensando a condição de ser mulher e professora nesse momento”, resume Regiane.

Classe, gênero e raça são recortes essenciais para debate sobre desigualdade na pandemia

A professora Renata Gama, que representou a diretoria da Asduerj no encontro, lembrou o crescimento das situações de violência e de violações contra a mulher, além do número de feminicídios durante o período da pandemia.

O aumento da pobreza e da fome também tem afetado particularmente as mulheres, aponta Renata. Boa parte delas são as chefes do lar e estão mais expostas à Covid por ter que sair para trabalhar. A docente destacou as diversas falas do encontro que apontaram a necessidade de se retomar as campanhas de solidariedade, devido à acentuação da fome em todo país – um verdadeiro plano genocida, de queima de exército de reserva, denuncia.

Para a diretora da Asduerj, o encontro foi um importante espaço de debate centrado em questões de classe, gênero e raça, como o reconhecimento da mulher negra, que está na base da sociedade e sofre mais com a discriminação e com as mazelas da pandemia. Os ataques não atingem de forma igual a todos e todas, conclui.

Encontro possibilita criação de rede de mulheres contra silenciamento das desigualdades

A realização de pesquisas pelas seções sindicais que identifiquem quais os espaços das mulheres nas suas carreiras foi uma das deliberações do encontro. Uma pesquisa recente revelou que as mulheres estão publicando menos durante a pandemia. A Asduerj também realizou uma pesquisa sobre o trabalho docente na pandemia com recortes de gênero que serão compartilhados com o Andes-SN e as seções sindicais.

Para a professora Regiane, o encontro possibilitou a criação de uma rede de mulheres professoras que possam dividir vivências e construir uma frente de apoio e luta para que essas questões não sejam silenciadas.

-“Elas não podem ficar no âmbito individual, têm que serem vistas como dores e situações comuns, de um lugar social, que é o da mulher. Devem servir para que nosso Sindicato e as instituições a que estamos inseridas possam olhar para essas situações com mais atenção e entender que muitas vezes são necessárias algumas ações afirmativas para a gente poder vivenciar em pé de igualdade nosso papel docente e de pesquisadora. Foi um momento inicial importante para a gente começar a pensar o papel da mulher dentro da carreira docente”, acredita.

Uma carta com as deliberações do 1º Encontro de Professoras será divulgada ainda essa semana, segundo a diretora da Regional Rio do Andes-SN Rosineide de Freitas (CAp/Uerj). O documento reunirá os encaminhamentos feitos pelos grupos de discussões formados durante o encontro, com indicações de pautas de lutas para as seções sindicais e para o Andes-SN.

A professora Rosineide ressaltou também a participação da professora Milena Barroso da Universidade Federal do Sergipe (UFS) e da assistente social Lúcia Xavier da ONG Criola, que abriram o evento. As palestrantes contribuíram para localizar o debate dentro do contexto da nova ordem do capital, da pandemia, do corte racial, das violências e das violações sofridas pelas mulheres trabalhadoras.