Expansão da precariedade? Uerj planeja investir em novas unidades enquanto atuais pedem socorro | Especial Haroldinho

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Entrada principal do Haroldinho, foco da primeira reportagem sobre condições dos prédios da Uerj

A comunidade uerjiana costumeiramente se orgulha dos diversos Campi e Unidades Externas que mantém, localizados em todo o Estado do Rio de Janeiro. E, muito além dos muros do Campus Maracanã, essa lista em breve deve crescer: Uma das falas que mais chamou atenção durante a sessão do Conselho Universitário do dia 22 de Julho foi sobre a previsão orçamentária para dois novos campi, um em Vaz Lobo, na Zona Norte carioca, e outro em Cabo Frio, Região dos Lagos.

Com a Reitoria afirmando categoricamente que “dinheiro não é problema”, representantes de alguns departamentos que sofrem com precariedades estruturais históricas ficaram imediatamente incomodados. “E como fica o Haroldinho?”, foi uma das indagações levantadas publicamente durante a sessão.

E é justamente através do Haroldinho que a Asduerj inicia hoje uma série de reportagens sobre o estado atual de alguns prédios da universidade. Ouvindo especialmente os relatos dos docentes que vivenciam o dia a dia e as condições de trabalho de cada unidade.

Condições do Haroldinho preocupam: “Não existem saídas de emergência e nem brigada de incêndio”

Construído inicialmente para ser um hospital público (nunca inaugurado), a estrutura foi ocupada temporariamente pela população mais carente, no que se tornou a Favela do Esqueleto, emergida ao lado do então recém inaugurado Estádio do Maracanã, em 1950. O Haroldo, que deu o nome ao primeiro pavilhão da Uerj, foi o Reitor da Universidade nos primeiros anos de construção do Campus Universitário Francisco Negrão de Lima.

A estrutura que abriga atualmente os crescentes cursos de Química, Engenharia Química e Biologia, é, portanto, uma das mais antigas da Uerj, tendo passado por diversas mudanças funcionais ao longo dos anos. O Instituto de Química (IQ), que ocupa o prédio há mais tempo, atualmente é responsável pelo 3º e o 4º andar, enquanto o Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (IBRAG) é responsável especialmente pelo 2º e 5º andar – e problemas não faltam em todos os andares.

A realidade do Pavilhão é acompanhada de perto pelo Conselheiro da Asduerj Rodrigo Reis, professor do Instituto de Química. Segundo ele, o prédio não comporta a demanda atual dos cursos de graduação. “O Haroldinho está completamente saturado, não temos salas de aulas e laboratórios de pesquisas suficientes”, relatou. “Muitos laboratórios tem equipamentos empilhados, sem o distanciamento necessário, além de mais alunos por metro quadrado do que diz a norma”.

O conselheiro da Asduerj chamou a atenção também para sérios problemas nas instalações hidráulicas e elétricas. “A parte hidráulica é muito antiga e a condição dos barriletes de água potável é preocupante. Eles alimentam a água limpa para todo o prédio e estão com avançado nível de oxidação. Como ficam no alto do prédio, se estourarem podem comprometer toda a estrutura”, alertou.

Outros graves problemas de infraestrutura do prédio foram apontados pelo docente: “Não temos brigada de incêndio. E, pior, não temos saídas de emergência. Só temos uma escada no centro do prédio. Ou seja, qualquer acidente que trave essa escada inviabilizaria a saída. Como a maior parte dos Laboratórios de Pesquisa fica nas laterais do prédio, quem neles estivessem ficaria preso numa situação de fogo e fumaça. Não há por exemplo os ‘chuveirinhos automáticos sprinkler‘, como nos outros Pavilhões, mas ainda mais necessário no contexto do Instituto de Química”, destacou. Lembra ainda que cada aumento de demanda cria um novo emaranhado de fios, aumentando os riscos.

Para ele, a modernização é sobretudo uma necessidade de segurança. “O Haroldinho recebe o biotério da Biologia, que trabalha com material volátil inflamável, assim como o Instituto de Química, onde tudo envolve material assim. Tem que se pensar em exaustão, ventilação”.

O Pavilhão tem apenas uma escadaria central: “Não há saídas de emergência”

Antigo prédio do CAp ou Fonseca Teles? Proposta de mudança de prédio não agrada docentes

Ouvimos também outros dois professores do Instituto de Química, que preferiram não se identificar. Os questionamentos foram na mesma linha do conselheiro da Asduerj:

Um dos professores, que vamos chamar de X, enumerou o que considera os três principais problemas do prédio: as instalações elétricas, as placas de forro do teto, e o estado dos banheiros – especialmente os do 3º andar. Sobre o primeiro ponto, lembrou do prejuízo a um equipamento caro, custeado através de projeto externo: “Perdi um equipamento de R$ 10 mil, queimado pelos problemas elétricos. Não tem como trabalhar, está insustentável”, lamentou.

Quanto às placas de forro do teto, o docente lembrou de um incidente que ocorreu antes da pandemia. “Um pedaço de placa do teto caiu em cima de uma aluna minha do mestrado. Por sorte não foi nada mais grave”, lembrou. Ele concluiu a enumeração criticando o estado banheiro masculino do 3º andar, que por vezes lembra um “esgoto a céu aberto”. “Nunca estive em um lugar tão precário no Brasil como aqui na Uerj. Duvido que um professor da USP, da Unesp, UFMG trabalharia nessas condições.”, concluiu X.

Outro docente, que também preferiu não se identificar e chamaremos de Z, reforçou as preocupações do colega e destacou uma recente visita da Reitoria ao Pavilhão. Segundo Z, uma comitiva da Reitoria, com Pró-Reitores, representantes da Prefeitura e da SGP, estiveram presentes recentemente no Haroldinho para conversar com a comunidade da unidade. Foi sugerido na ocasião uma migração do Instituto de Química para algum outro prédio da Uerj. “Propuseram uma mudança para o antigo prédio do CAp, ou então para o Complexo Fonseca Teles”.

O docente classificou essas propostas como fora da realidade: “O Reitor desconhece a realidade de um Instituto de Pesquisa. São equipamentos que somam milhões de reais ali, é descabido propor uma mudança de local. A solução não é mudar, e sim consertar os problemas existentes no prédio”, afirmou Z, que garante ter gasto “mais de R$ 20 mil do próprio bolso” em adaptações de infraestrutura para laboratório no Instituto de Química.

A falta de padrão nas instalações de aparelhos de ar condicionado é visível para quem chega no Haroldinho. Reflexo da instalação de laboratórios através de projetos externos, sempre de formas e momentos diferentes.
Banheiros em condições ruins são queixas comuns para quem frequenta o Pavilhão, como por exemplo neste mictório interditado
O forro do teto apresenta muitas falhas por todo o prédio, causando constante sensação de desconfiança e insegurança segundo os docentes entrevistados.
Cena comum: Pilhas de caixas com equipamentos dos laboratórios se acumulam na entrada principal do Pavilhão. “As vezes chegam praticamente até o teto”.
Risco visível desde o ano passado: Pedaços de reboco do prédio já caíram, evidenciando a importância de uma reforma também na fachada. A Prefeitura do Campus colocou cones e fitas de sinalização para evitar acidentes mais graves.
É visível também a oxidação na tubulação do barrilete que alimenta a água limpa de todo o Pavilhão. “É uma área de grande pressão hídrica, por isso um acidente ali poderia até inundar o prédio todo”.
Obras despadronizadas no entorno causam dúvidas até para quem frequenta o Pavilhão. “Há uma série de ‘puxadinhos'”.
O entorno também sofre com rachaduras grandes no pavimento. Segundo docentes do Instituto de Química a queda de galhos (e até de árvores) não é exatamente uma novidade na região.

Reitoria garante que questão não é orçamentária

Os problemas de infraestrutura do Haroldinho também foram intensamente discutidos nas sessões do Conselho Universitário realizadas nos dias 22 e 29 de julho, que deliberaram sobre a proposta orçamentária da Uerj para 2023. Nesses debates a precariedade das instalações do prédio foram contrapostas por diversos conselheiros ao projeto de expansão da universidade, que incluem a aquisição de novos campi, como os de Vaz Lobo e Cabo Frio.

Na Proposta Orçamentária apresentada pela Diplan ao Consun, constava uma previsão de dotação orçamentária de R$ 20 milhões para as instalações do futuro campus da Uerj em Vaz Lobo. “Na realidade, esse valor é de uma obra que já começou e vai terminar no final do ano”, afirmou o Reitor Mário Carneiro, ao responder o questionamento da conselheira Nádia Pimenta Lima, diretora do Centro de Tecnologia e Ciências (CTC), se já haveria recursos próprios da Uerj nesse novo campus.

Para a Conselheira Ana Karina Brenner, da Faculdade de Educação, diante de prédios que estão com problemas graves, não parece estratégico assumir um outro prédio. “A gente precisa dar conta do que a gente tem. A universidade pública precisa crescer, mas a gente precisa junto disso dar condições de trabalho e de estudo ao que já existe”, afirmou a Conselheira, uma das que mencionou diretamente os problemas de infraestrutura do Prédio Haroldo Lisboa Filho.

Segundo o Reitor, a aquisição do novo campus em Vaz Lobo não teve impacto nenhum sobre a execução da reforma do Haroldinho. “O que impacta resolver problemas aqui de estrutura e de obras é fazer projeto, licitar, colocar o funcionário para trabalhar, fazendo a obra. Essa Reitoria assumiu a universidade em 2020, logo depois veio a pandemia. Todos nós, logicamente, entramos em trabalho remoto nas nossas casas. Não tínhamos como exigir que a Prefeitura trabalhasse nesses dois anos, colocando os funcionários para fazer obras. Praticamente, a gente está começando agora a retomar isso tudo, como estamos retomando o nosso trabalho presencial. São situações que acontecem. Existe a prioridade de atender a todas essas demandas. Estão sendo trabalhados os restaurantes, o projeto de recuperação do Haroldinho e nós temos orçamento para isso. Nossa questão não é orçamentária. É diferente. Com certeza, tudo será executado”, concluiu.

Segundo os docentes ouvidos, não é por falta de projetos de reformas. Como por exemplo este abaixo, de fevereiro de 2022 (Iniciativa Prioritária 3 – PO IBRAG atualização Fev 2022), discutidos em conjunto pelos dois institutos presentes no Haroldinho.

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NOME: Projeto de Recuperação e Modernização do Pavilhão Haroldo Lisboa da Cunha e prédio anexo. Projeto em conjunto com o Instituto de Química (IQ)

Vistoria estrutural das fachadas do prédio principal, levando em conta: aspectos estruturais, janelas e esquadrias, biossegurança, segurança sanitária, estruturas hidráulicas, elétricas, mapa atual de tubulações.

Elaboração de projeto com a Engenharia/Arquitetura que contemple a parte externa do pavilhão: estrutura, sistemas de emergência, redes elétrica, lógica, hidráulica, de esgotamento, de gás natural, janelas e esquadrias, iluminação natural, casa de gases, shaft de gases de lab, sala de rejeitos químicos e biológicos, novos barbará de águas de chuva passando por fora do prédio, sala de destilação de águas, laboratório úmido.

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A Asduerj tem recebido denúncias de diversas unidades sobre processos similares de más condições de trabalho de parte considerável dos campi da Uerj. Desta forma, entendemos que o recurso financeiro disponível deve ser alocado nas demandas de condições estruturais de funcionamento da universidade existente, evitando difundir a precarização. Como já mencionado, esta matéria inicia uma série de reportagens sobre o tema, que serão publicadas nas próximas semanas. A questão também estará na pauta da nossa próxima assembleia para que possamos aprofundar esse debate com a categoria.

CONCLUSÃO

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2 COMENTÁRIOS

  1. Estamos esperando por vocês no IFCH. Falta de limpeza e higiene por cortes sucessivos do pessoal terceirizado dessa área, mesas e cadeiras quebradas na secretaria de graduação (não garantindo segurança e conforto para o trabalho dos técnicos), vasos sanitários soltos no banheiro feminino, janelas com defeitos na abertura e fechamento que despencam e já levaram a perda de dedo segundo informe do Dessaude etc. Condições precárias e perigosas para os servidores podendo ocasionar acidentes no ambiente do trabalho.

  2. Excelente matéria. Tudo que foi relatado é verdade! Totalmente contraditório investir em novas unidades com o Haroldinho caindo. As reformas no Haroldinho são URGENTES, antes que o pior aconteça!

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