Nota da Asduerj sobre a “mediação tecnológica” no CAp-Uerj durante a pandemia

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O momento difícil pelo qual estamos passando tende a se agravar, visto que ainda não enfrentamos o ápice da pandemia do novo coronavírus. Neste contexto, a Asduerj (Associação dos Docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) – Seção Sindical do Andes-SN –, acompanhando a evolução da pandemia, vem manifestar sua posição quanto à utilização da chamada “mediação tecnológica” no Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira – CAp-Uerj.

Considerando que ainda não é possível definir a temporalidade da suspensão do calendário acadêmico da Uerj e que somente com uma mínima previsão sobre o futuro poderemos atuar coerentemente com alguma ação no presente, avaliamos que não é o momento de acolhermos iniciativas que induzam os docentes e discentes a aderirem a soluções não planejadas previamente, de maneira improvisada, sem ampla participação e sem um cenário definido.

A educação como direito universal, público e gratuito, pressupõe que todos devem ter acesso e estar envolvidos, portanto, qualquer proposta que não cumpra esse requisito deveria ser descartada. A utilização de ferramentas digitais não deve ser uma solução apressada para lidar com adversidades em substituição à educação presencial. O oferecimento de conteúdos por meio de plataformas digitais, ainda que de forma não obrigatória, será uma medida excludente e não uma solução socialmente justa, quebrando o princípio educativo que afirma a igualdade como valor estruturante da educação pública.

Na situação atual, é preciso mais do que nunca resgatar os valores de uma educação transformadora. Ensinar não deve ser reduzido à exibição de um vídeo ou a disponibilização de uma atividade, assim como aprender não deve se resumir a assistir a um conteúdo na frente de um computador. Isto seria uma radicalização da “educação bancária”, tão criticada por Paulo Freire.

As interações presenciais, sociais e afetivas são fundamentais para o processo de ensino-aprendizado e não podemos dizer que a educação para crianças e adolescentes possa acontecer sem a presença física de professores, estudantes e demais membros da comunidade escolar. A adaptação de conteúdos das disciplinas para o formato on-line, como uma espécie de redução de danos aos estudantes, não resolve o problema da ausência de aulas, apenas cria um novo tipo de educação domiciliar não regulamentada, que demandará obrigatoriamente a tutoria dos pais ou responsáveis a fim de reforçar dinamismos de transmissão de conteúdos.

O processo denominado de “mediação tecnológica” excluirá parte dos estudantes, por falta de recursos, aprofundando as desigualdades sociais latentes dentro do Instituto de Aplicação. Assim, crianças e adolescentes que possuem nome, rosto, classe social, e já são afetados de modo diferenciado pela pandemia, ficarão ainda mais prejudicados neste contexto.

No que tange aos docentes, estamos falando de tempo e de jornada de trabalho indefinida, responsabilização individual, tensões que poderão ser criadas e abertura de espaço para que professores, que por inúmeros motivos não postarem conteúdos, sejam cobrados pelas famílias dos alunos. Além disso, se o Instituto de Aplicação da Universidade – que tem por função precípua a formação de professores –, passar a oferecer atividades sem incluir no planejamento as ações dos graduandos, a instituição deixaria de cumprir uma de suas funções primordiais.

Nossa preocupação também se dá com a personalização e individualização da discussão. As saídas precisam ser sempre pensadas de forma institucionalizada, universal, comunitária e não de forma particularizada, colocando aqueles que podem e concordam em fazer frente aqueles que não podem ou discordam, cabendo ao aluno ou ao professor escolher se irá aderir ou não a proposta de “mediação tecnológica” por meio de uso de uma plataforma digital. Além disso, uma discussão de tal magnitude, que interfere na vida de todos e todas, não pode ser tomada de forma apressada por meio de reuniões remotas deliberativas que excluem muitos docentes e não viabilizam a participação da comunidade escolar como um todo.

Qualquer processo educacional pensado para este momento não deve acontecer por meio de uma transformação digital apressada, gerando mais angústias e cobranças. Um processo como esse demanda acúmulo e debates que deverão ser travados presencialmente, inclusive para nos preparar para situações futuras que possam repetir a que estamos vivenciando agora. Esse é o primeiro isolamento social que vivenciamos, temos que encará-lo com calma e tranquilidade para sairmos todos vivos, saudáveis e dar seguimento a pretensa vida normal quando tudo isso passar.

Desde que se iniciou a pandemia, a implementação forçada da EAD nas redes públicas e privadas tem gerado um processo amplo de precarização do trabalho docente, pois além dos professores terem que lidar com o aprofundamento da crise sanitária e de toda a instabilidade decorrente, ainda têm que enfrentar uma mudança abrupta dos modos como concebem o seu trabalho. Isso tem significado uma ameaça à profissão docente e um modo de massacrar ainda mais os professores.

Os professores das escolas privadas que não se adaptam a EAD estão sendo eliminados de seus postos de trabalho; os docentes da rede estadual do Rio de Janeiro, que têm aderido à proposta de EAD da Secretaria de Educação, o fazem com medo de perder suas gratificações salariais; redes públicas em todo o país estão cancelando o contrato dos professores temporários durante a pandemia; ou seja, os professores têm passado por processos de profundas ameaças no momento atual, sendo descartados, demitidos e assediados moralmente. Ao colocarmos este cenário acreditamos que o CAp-Uerj, uma instituição que sempre foi considerada um exemplo para as redes públicas e privadas do Rio de Janeiro, não irá endossar o darwinismo professoral que pareceu se impor à educação brasileira no último mês.

Tememos que situações ocorridas pelo país também venham a acontecer na Uerj, por isso demonstramos a nossa preocupação com a nota da reitoria encaminhada aos professores substitutos, na qual há uma relação que associa estes docentes à “mediação tecnológica”. Sabendo que o Instituto de Aplicação é uma unidade que possui um expressivo número de professores substitutos, isso poderia gerar uma desigualdade entre os docentes, pois alguns se sentirão mais pressionados a aderir às propostas de “mediação tecnológica” sob a pena de não terem os seus contratos renovados.

Demonstramos, por fim, a nossa perplexidade e o completo desacordo com a manutenção, pelo INEP, do calendário do Enem 2020. Não há embasamento para concluirmos que nos próximos meses as atividades educacionais serão normalizadas no país, então obviamente o exame deveria ser suspenso. Diante de um momento de profundas incertezas, não consideramos correto trabalhar com a hipótese de que a vida se normalizará no próximo mês ou ainda neste semestre, pois ao que tudo indica não será dessa maneira. Há países suspendendo o ano letivo e aqui no Brasil isso também deveria estar sendo pensado com seriedade.

Em momentos de greve o corpo docente do CAp-Uerj sempre discutiu as particularidades do terceiro ano do ensino médio e os professores deste ano de escolaridade continuavam ministrando as aulas, tendo a aprovação da assembleia docente. Mas, o momento agora não deveria ser tratado como se tivéssemos passando por uma paralisação reivindicatória. O atendimento aos estudantes do terceiro ano do Ensino Médio deveria ser discutido a partir da reorganização do calendário escolar. Não é o momento dos alunos serem pressionados por avaliações externas, Enem e vestibulares. Precisamos envidar esforços para lutar pela suspensão das 800 horas letivas e exigir a suspensão de todas as avaliações em larga escala deste ano.

Por fim, destacamos a importância do acolhimento e o contato com os alunos neste período pandêmico. Diante do problema mundial que estamos enfrentando, precisamos mais do que nunca reforçar a solidariedade e buscar soluções coletivas para os problemas que nos afligem. No entanto, reforçamos que os debates acerca de um viés conteudista da educação, que buscam dar seguimento a uma pretensa normalidade, não necessariamente contribuirão para a formação humana das nossas crianças e adolescentes.

Será preciso repensar os conteúdos, a carga horária, a reorganização do ano letivo, sem ignorar as especificidades das áreas de conhecimento e os anos de escolaridade. Não foram poucas vezes que o aguerrido CAp-Uerj precisou fazer isso e, certamente, o seu corpo docente e discente saberá fazê-lo novamente e assim enfrentar toda essa conjuntura da melhor forma possível.

Foto: Comuns/Uerj

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