Nota sobre mediação tecnológica do ensino na Uerj

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A diretoria da Asduerj e o seu Conselho de Representantes vêm manifestar sua posição quanto às propostas de ensino não presencial, que têm circulado na Uerj, em virtude da atual crise sanitária. Consideramos precipitado entender que a oferta de conteúdos on-line para os alunos por meio de uma plataforma digital seja o caminho adequado para a continuação de atividades na universidade. Isso merece uma discussão mais profunda, que passa pela questão do acesso e da qualidade da educação.

Num momento de pandemia, sem a mínima previsão sobre o que poderá acontecer, não consideramos prudente a nossa comunidade assumir propostas de ensino experimentais, com um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), que se caracteriza como uma ferramenta de ensino a distância. Não se trata de negar a importância da tecnologia e a sua utilização em qualquer tempo, mas precisamos ter condições de avaliar a continuidade da vida acadêmica com a garantia do debate democrático acerca dos rumos que iremos tomar.

É verdade que a administração da universidade afirma que a adesão do corpo docente e discente à plataforma será optativa e que não deverá haver cobrança de presença ou avaliações, mas a proposta tem sido apropriada de diferentes maneiras nos institutos e departamentos, sem controle democrático da comunidade universitária. Isso poderá ferir o princípio da liberdade docente, que implica, dentre outras coisas, os professores poderem exercer seu ofício sem estarem sujeitos a qualquer tipo de coação.

Cabe dizer que possíveis cenários de médio e longo prazo, impostos por condições sanitárias futuras, impossibilitando que a presença física seja integralmente viável precisam ser cuidadosamente sedimentados. De modo diferente, medidas açodadas de implementação de estratégias de educação mediada por tecnologia podem comprometer a inclusão de muitos de nossos alunos, fragilizando a liberdade de atuação docente, além de comprometer a saúde mental e física de toda nossa comunidade.

Para mantermos nosso compromisso com a educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada é necessário que se avalie o quanto essas propostas estão em consonância com os princípios norteadores da Uerj. É imperioso que sejam consideradas as condições efetivas de acesso tecnológico de toda a comunidade e quais eventuais medidas poderiam ser consideradas para reversão das limitações de acesso. Nesse sentido, precisam ser levadas em conta também as realidades de nossos diferentes campi e níveis de ensino (educação básica, graduação e pós-graduação).

A situação atual não se assemelha a férias, recessos, greves, tampouco à vida normal. Muitos dos nossos alunos estão lidando com questões psicológicas e sistêmicas graves nas famílias, numa tensão permanente, lutando pela subsistência e pela sobrevivência. Portanto, a retórica de mediação tecnológica não encontra eco na realidade e pode aprofundar ainda mais a exclusão. Não podemos ignorar a condição de vida do corpo discente, naturalizar a desigualdade social que sempre existiu e aprofundá-la ainda mais. Nem um aluno a menos!

Somos uma universidade popular. Precisamos inverter a ordem da nossa prioridade e desenvolver propostas condizentes com o atual momento. É necessário pensar no acolhimento por meio de iniciativas solidárias, mapear a situação dos nossos estudantes, manter os serviços essenciais durante a pandemia, defender a universidade e ter o mínimo de previsibilidade para pensar o futuro das atividades acadêmicas. O importante agora é a luta pela vida para que possamos passar bem por esse período tão difícil para todos.

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