Suspensão de aulas por eventos esportivos traz de volta a ameaça da normalização do remoto

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Motivo de alegrias para muitos, a proximidade entre a Uerj e o estádio do Maracanã tem se tornado razão de apreensão e transtornos para a comunidade universitária.

A realização de jogos que envolvem times de grande torcida em dias úteis tem dificultado tanto a chegada quanto a saída do maior campus da universidade e, em muitos casos, levado à suspensão das atividades presenciais ou ao cancelamento de aulas do período noturno, nos últimos dois meses.

A interdição das ruas no entorno do estádio pela prefeitura, a superlotação nos transportes públicos que dão acesso ao campus, horas antes do início das partidas, e os riscos à segurança, com possíveis confrontos entre torcidas organizadas e forças policiais, trouxeram de volta ao cotidiano da Uerj o indesejado fantasma do ensino remoto.

O recurso às plataformas digitais, que se imaginava superado após seu traumático uso compulsório nos dois últimos anos de pandemia, está sendo a saída encontrada por muitas unidades acadêmicas, na ausência de qualquer alternativa apresentada pela administração central da universidade. A direção da Faculdade de Educação (Feduc), uma das que tem recorrido ao remoto nos dias de jogos, aponta algumas dificuldades decorrentes da inexistência de uma coordenação da universidade para enfrentar a situação

Além de seu alunado, a Feduc atende a estudantes dos cursos de licenciatura egressos de outras unidades. É possível informar aos estudantes da Faculdade sobre a transferência da atividade para o remoto, a partir do próprio AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), mas nem sempre se atinge os estudantes da licenciatura, explica a direção da unidade. “Muitas vezes fico na companhia de técnicos universitários aguardando a chegada de algum aluno desavisado, para que possamos lhe dar acesso ao wi-fi, para participar da atividade”, relata o diretor da Faculdade de Educação, professor Washington Dener Cunha.

Outra dificuldade é a ausência de referência para se decidir pela suspensão das atividades. Na falta de uma posição oficial da Reitoria, algumas unidades têm se baseado em recomendações divulgadas pelo Ministério Público, em suas redes sociais. Nos dias das partidas, o MPRJ e órgãos envolvidos no planejamento dos jogos têm publicado bandeiras classificatórias de riscos ao bem-estar e à segurança no entorno do estádio. A vermelha, a de mais alto risco, foi a escolhida para todas as partidas de decisão de Copas, realizadas desde o mês de julho no Maracanã.

A próxima partida agendada para o estádio em um dia útil será na quarta-feira, 14/9. O jogo entre Flamengo e São Paulo já está com ingressos esgotados e a previsão é de mais de 60 mil torcedores presentes.

Para além do calendário esportivo, um debate na comunidade universitária sobre a questão se mostra urgente. A opção pelo ensino remoto frente a quaisquer obstáculos às atividades presencias parece se naturalizar no cotidiano universitário. Algo que em instituições como a Uni-Rio já ameaça ganhar cunho normativo, como a minuta em debate na Câmara de Graduação da universidade, que possibilita a oferta de até 40% da carga horária dos cursos presenciais na forma semipresencial. Não podemos permitir que iniciativas oportunistas coloquem a universidade presencial em risco.

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