‘Movimento Sem Sala’ denuncia problemas estruturais do Prédio dos Alunos | Especial Instituto de Artes/Coart

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Quem visitou nessas últimas semanas o Restaurante Universitário do Campus Maracanã provavelmente se deparou com uma enorme faixa com os dizeres “MSS: Movimento Sem Sala – Instituto de Artes“, logo na entrada do Centro Cultural da Uerj. A faixa no prédio administrado pela Coordenadoria de Artes e Oficinas de Criação (Coart) é uma denúncia do Instituto de Artes, que encontrou uma série de problemas estruturais ao retornar às aulas presenciais. A luta e movimentação interna por condições dignas de trabalho e aprendizado na unidade é crescente, com adesão de professores, estudantes e técnicos universitários.

E é pelo Prédio dos Alunos, pavilhão originalmente projetado para ser alojamento e restaurante universitários, que a Asduerj dá sequência à série de reportagens sobre os dilemas da estrutura uerjiana – com seus problemas frente a um vigente discurso expansionista da Reitoria e do atual Governo do Estado.

Estivemos no prédio na última segunda-feira, 22 de agosto, e era visível a precariedade de algumas salas. O problema principal é a infiltração de água da chuva, causadora de constantes goteiras (que formam até mesmo estalactites e estalagmites), deixando algumas salas de aula inutilizáveis. Há também queixas sobre ninhos de pombo no local, um dos motivos pelo qual o laudo do Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho (Des-saude) solicitou obras urgentes e a paralisação das atividades do local. Mas, além de goteiras e pombos, há uma importante pauta por espaço de trabalho.

“Dignidade é o que a gente exige”, denuncia professora do Instituto de Artes em ato realizado no início do mês

“Todo mundo precisa saber o que está acontecendo”

Uma das responsáveis pelo “Movimento Sem Sala” é Eloisa Brantes, professora do Instituto de Artes. Eloisa participou ativamente do ato realizado em uma das entradas do Campus Maracanã no dia 4 de agosto. A performance ‘Movimento Sem Sala’ (vídeo acima) foi a finalização da Semana de abertura de Pós-Graduação do Instituto de Artes, e chamou a atenção para a precarização do curso.

“Todo mundo precisa saber do que está acontecendo. A gente estava ali morrendo, sem sala, e ninguém sabia. Por isso botamos a faixa do ‘Movimento Sem Sala’ e isso mobilizou os estudantes”, explica a docente. “Logo uma sala de dança, onde as pessoas trabalham o corpo, saindo de uma pandemia onde todos os corpos estão adoecidos, literalmente. Não ter essa sala é uma perda muito grande”.

A professora conta que os últimos dois semestres foram “praticamente sem dormir”, por causa dos transtornos causados pela falta de sala. Após dar aulas em locais improvisados, a professora optou pela decisão política de lecionar no corredores da Coart. “Fiz questão de não aceitar uma sala. Aceitar uma sala emprestada é esconder. O problema fora da vista deixa de ser um problema”.

As infiltrações que geraram esse transtorno são reversíveis, avalia. “Esse não é um problema crônico. Foi um problema causado pelas placas solares para aquecimento da água do Bandejão. Essa obra foi mal feita, e a água da chuva entra nas salas”.

A solução foi improvisar a “sala de dança” nos corredores

Laudo do Des-saude pede “urgência” e funcionários atestam insalubridade

Em 14 de julho uma equipe do Des-saude vistoriou o prédio da Coart e constatou a necessidade de medidas “urgentes”. A inspeção de segurança gerou longo relatório (imagem abaixo) apontando para “riscos à saúde e segurança de trabalhadores e alunos”, chamando a atenção para a falta de avanços em relação a uma outra inspeção, no final de 2021. Graças a essa vistoria as atividades na Coart foram limitadas.

Desde então boa parte dos funcionários está trabalhando remotamente, como destaca um representante do grupo de orientadores de oficinas da Coart. “Os problemas de infiltrações na verdade são antigos, embora tenham se agravado após o período de 1 ano e 10 meses fechados pela pandemia. O prédio não é salubre e a Uerj precisa nos dar condições de trabalho salubres”, declarou. Segundo os orientadores, há uma série de dúvidas fundamentais antes de um retorno seguro.

A água das goteiras carrega uma substância que causa preocupação aos trabalhadores. “O que cai do teto é uma substância branca que a gente não sabe o que é. Deveria ser levado para uma análise em laboratório para saber qual o real risco para a saúde de todos”, lembrou, destacando a necessidade de cuidado com quem for executar as tarefas com os pombos: “A Uerj manda funcionários para limpar a sujeira e ninhos de pombos, mas não há segurança para quem for fazer o serviço”.

Outro motivo de preocupação é o enorme boiler com água quente que abastece o bandejão, vizinho à Coart. A água é aquecida por placas solares que causaram os vazamentos no prédio. “Não houve estudo para instalação do boiler em cima da Galeria da Passagem. Todos se questionam se o teto aguenta o peso”, alerta o grupo de orientadores, que ainda não estão certos de quando poderão ter um retorno presencial seguro ao prédio.

Clique na imagem acima para ler o relatório do DES-SAÚDE na íntegra

Há no entanto uma expectativa no horizonte. Segundo a professora Monica Bolsoni, coordenadora da Coart, as obras definitivas no telhado estão nos planos da Reitoria. “O projeto está sendo finalizado. A partir de sua aprovação, 120 dias (para finalizar as obras). Até dezembro ficará pronto, essa é a estimativa da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura”, disse a coordenadora.

A coordenadora destacou que as ordens de serviço estão sendo realizadas aos poucos e algumas salas já se encontram recuperadas e pintadas. Em uma publicação nesta sexta-feira, 26/8, as redes sociais da Coart garantem que o retorno das oficinas será ainda neste ano. “Nossa equipe tem trabalhado em novas propostas para serem oferecidas no segundo semestre! em breve divulgaremos”, destaca a publicação.

Estudantes reivindicam espaço permanente no Campus Maracanã

Em paralelo aos problemas estruturais do prédio, o que se percebe é uma contundente reivindicação do Instituto de Artes por um espaço permanente, tanto no Prédio dos Alunos, uma vez que algumas salas são compartilhadas com as oficinais da Coart, quanto no próprio Campus Maracanã. Há um temor sobre a transferência do curso para um outro prédio fora do campus, assim como foi sugerido ao Instituto de Química sobre o Haroldinho.

Conversamos com três estudantes representantes do Coletivo Anita Malfatti, que relataram as pautas que tem movimentado as frequentes assembleias discentes da unidade.

“A última assembleia estudantil deliberou um ato unificado para o dia 15 de setembro. Será como foi o ‘Direito fica’, só que do curso de Artes, que sofre com a invisibilidade dentro da própria Uerj”, declarou uma estudante, referindo ao movimento estudantil que defendeu a permanência do curso de Direito no Campus Maracanã, em 2017. “Essa pressão no ato do dia 15/9 tem que ser de todos”, convocou.

A pressão é pela permanência no Maracanã e por autonomia no uso dos espaços. Afinal, o Instituto de Artes tem dois programas de pós-graduação, mestrado e doutorado, além de três cursos de graduação. “São mais de 700 alunos”, segundo a professora Eloisa. Para expandir essa autonomia, os estudantes pesquisaram as dependências do Prédio dos Alunos: “Fomos lá e contamos mais de 18 salas, algumas vazias, que poderiam receber atividades. Por que não ceder espaço para um curso que está sendo expulso enquanto se expande a Universidade? Como tem dinheiro para investir em prédios novos e não reformam a Coart? Aqui tem espaço”, afirmaram.

A silenciosa disputa territorial no prédio causa indignação em partes dos estudantes, que gostariam de ver uma maior integração entre o Instituto e a PR-3. “Como pode uma Pró-reitoria de Extensão e Cultura ser desligada de um Instituto de Artes? Não tem projetos com nossos professores. Por que não temos alunos e representações no Coart?”, indagou uma aluna.

Os alunos concluíram o relato demonstrando o temor pelo esvaziamento do curso de Artes já nos próximos períodos. Para eles, a falta de salas de aulas empurra e naturaliza o EAD. “É visível que o número de colegas diminuiu após o período remoto. Muitos colegas não tinham como ter aulas. É um curso bastante presencial. Imagina o ensino de dança por EAD? Era constrangedor”, lamentou um aluno. “Se mudarmos de prédio, a tendência é elitizar e afastar os alunos mais necessitados, uma vez que o Campus Maracanã é ao lado da estação de trem”, conclui.

Reitoria discutiu possíveis prédios novos durante Consun

O assunto também foi tema da última sessão do Conselho Universitário, realizada no dia 5 de agosto. O conselheiro Aldo Victorio Filho, representante do Instituto de Artes, questionou a respeito das providências que a Universidade está tomando em relação à atual situação da unidade, que, segundo ele, “se agravou com a interdição dos espaços compartilhados da Coart”.

O conselheiro afirmou ainda que já há disciplinas interrompidas, devido à destruição do LabCena (Laboratório de Artes Cênicas), que é um laboratório utilizado tanto pela graduação quanto pela pós-graduação. E seguiu, demonstrando grande preocupação com o espaço: “A situação do Instituto de Artes nesse momento é muito difícil, diria quase insustentável”.

“Temos também o gravíssimo problema de ocuparmos um corredor perpendicular ao bloco F (no 11º andar), que são corredores que não foram projetados para aulas, e sim para laboratórios e atividades administrativas, portanto, são salas pequenas, onde estamos acumulando quase cinquenta alunos em determinadas disciplinas, o que contraria todas as precauções em relação à pandemia”, alertou.

Em resposta, a Reitoria citou três possíveis alternativas, todas fora do Campus Maracanã. A primeira seria o antigo prédio do CAp, no Rio Comprido. “Eu iria para o Colégio de Aplicação, que está pronto, tem as salas e é real, porque não vejo – agora estou falando como colega, não é como pró-reitora – não vislumbro, mesmo comprando ou desapropriando, algo utilizável em menos de 2 anos”, disse Cláudia Gonçalves, Pró-reitora de Extensão e Cultura.

Para o representante do Instituto de Artes, essa não seria uma boa solução, uma vez que, para os alunos, é muito difícil o acesso ao local, na rua Santa Alexandrina. Para os professores, é tranquilo. Mas grande parte dos alunos do Instituto de Artes é residente da Baixada. Seria muito problemático. Um problema central que todos os alunos sempre perguntam é: “onde a gente vai comer?”. E comer é fundamental.

O Reitor Mário Carneiro citou ainda o prédio da Fonseca Teles, em São Cristóvão. “Estamos caminhando para ter 10 andares livres lá. Claro que precisa de reforma, com 1.200 m2 por andar. É um imóvel da Uerj que muitas secretarias de Estado estão de olho. Ou seja, se nós não o ocuparmos, amanhã ou depois, alguém pode usurpar esse imóvel da gente. Acho uma joia rara. É uma vista maravilhosa, perto daqui”, exaltou.

A terceira possibilidade seria um antigo galpão da fábrica Seda Moderna, no Estácio. Segundo o Reitor, o valor pedido foi considerado alto. “Queriam R$ 15 milhões. Mandamos fazer uma avaliação. Se essa avaliação bater com os R$ 15 milhões, a gente senta pra conversar e vamos ver se tem condições orçamentárias de compra, acredito que sim”, declarou o Reitor.

Veja a seguir algumas das queixas registradas em imagens

A maior parte dos funcionários da COART está em trabalho remoto. O espaço está restrito após parecer do Des-Saúde atestando insalubridade.
Faixa do “Movimento Sem Sala” ajudou a dar visibilidade aos problemas do curso do Instituto de Artes. “Dignidade é o que a gente exige”.
Cena comum: Baldes espalhados pelo pavilhão para conter goteiras constantes.
Comunicado do dia 11 de agosto alerta para a suspensão temporária das atividades na Coart. Expectativa é que, após aprovação do projeto, obras demorem cerca de quatro meses para conclusão.
Insalubridade visível: Portaria da Coart é uma das salas mais prejudicadas.
O piso da principal sala de dança está bastante manchado por uma camada branca. “É uma substância que a gente não sabe do que se trata. Teria que levar para laboratório para saber qual o risco para nossa saúde”.
Alguns aparelhos de ar-condicionado até são gradeados, mas não impedem a proximidade dos pombos (vide foto ao lado)
Ninhos de pombos são visíveis e preocupam. Relatório do Des-Saúde cita riscos de histoplasmose, criptocose, ornitose e alergias.
Parte do mobiliário de escritório foi danificado pela ação da chuva (vide armário de metal ao lado).
Segundo professora, uma possível ampliação do vizinho Bandejão pode limitar ainda mais os ateliês do Instituto de Artes.
Alguns trechos do forro também cederam pela ação das chuvas. Piano utilizado em oficinas de música da Coart precisou de recuperação.
O enorme boiler sobre o teto chama a atenção e preocupa: “Não sabemos se houve um estudo adequado. Será que suporta o peso?”
Equipamentos em risco: A ampliação dos prejuízos materiais é constante em sala completamente remodelada através de recursos via Faperj.
Goteiras, baldes, estalactites e estalagmites fazem parte do cenário da Coart.

Setembro será marcado por atos em defesa do Instituto de Artes

O próximo mês promete ser bastante agitado em torno das lutas do Instituto de Artes. Além do ato estudantil, agendado para o dia 15/9 (quinta-feira), haverá um espetáculo no dia 23/9 (sexta-feira) organizado por professores. “O ‘100 Sala 100 Corpos’ reunirá 130 estudantes envolvidos, de quatro turmas de dança e duas turmas de performance. Essas turmas ficaram sem sala de aulas durante esse semestre”, explicou a professora Eloisa. “Já que não temos sala vamos montar um espetáculo”.

A apresentação será no Teatro Odylo Costa Filho e é considerada por Eloisa como “um grito de desespero”, assim como a performance do último dia 4/8. “É o último dia de aulas do período e nós queremos todos os mil lugares lotados. É uma montagem que falará de um problema geral, institucional, que todos professores estão envolvidos também”, convidou a professora.

A Asduerj estará presente e segue recebendo denúncias sobre condições de trabalho inadequadas em vários campi da Universidade. Continuamos acreditando que, se disponíveis como alardeado no discurso expansionista, os recursos devem ser aplicados prioritariamente na regularização das unidades já existentes.

Essas importantes denúncias sobre condições de trabalho também estarão na pauta da próxima Assembleia Docente, que será realizada no próximo dia 2/9 (sexta-feira), às 14h no Auditório A da Faculdade de Serviço Social (9º Andar/Bloco D).

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